
Um ritmo genuinamente manauara “chega junto” nas plataformas de streaming de áudio neste mês. Tive acesso em primeira mão às faixas de “Burnout Caboclo”, o mais novo álbum de estúdio do cantor amazonense MSym, nome artístico no ramo do músico e produtor musical Gianini Masulo. Ao final dessa matéria, você confere minha avaliação do álbum.
A alcunha do artista é uma junção da sigla MC, típica do funk e do hip-hop, e a primeira sílaba do nome da banda de metal progressivo “Symphony X”, uma das favoritas de Masulo, além de ser um apelido que o músico tinha nas lanhouses da época de sua juventude. Além de músico, Masulo também é cineasta, e está sempre “se experimentando”, nas palavras do artista.
Seu mais novo trabalho, “Burnout Caboclo”, fala da necessidade do ser humano relaxar e contemplar a natureza, em meio à agitação e estresse do trabalho e da vida urbana. Segundo MSym, o conceito do álbum é fruto de uma experiência pessoal de esgotamento durante a realização de sua websérie chamada “Raízes da Criação”, em que ele investigava os processos criativos da arte cabocla. Paralelamente a isso, Masulo acumulava outros trabalhos, incluindo uma graduação, o que lhe tirava o tempo livre, até chegar a um nível insustentável.
A Fonte da Ideia
Ao investigar estudos sobre metacognição – a arte de pensar o pensamento –, Masulo começou a otimizar sua forma de fazer arte com o pouco tempo livre que tinha, aliando trabalho e lazer.
Em meio a um quadro de depressão severa e uma inesperada perda dos movimentos da mão por oito meses – sem diagnósticos otimistas sobre sua recuperação – Masulo aceitou um convite de viagem feito por um primo até a chamada Costa do Pesqueiro, em Manacapuru, da qual saiu transformado. Ao se deparar com uma seca que invadiu a região, Masulo considerou uma forma de fazer o que ele chama de um “registro histórico” da natureza, enquanto ainda é possível apreciá-la.
Há Vida para Além das Cidades
Na faixa “Costa do Pesqueiro”, MSym fala sobre sua viagem ao interior. Entenda isso como quiser. Seria esse interior, além de uma cidade pequena da região, também o nosso próprio recôndito mais profundo, que revela nossa essência?
MSym acredita que o avanço da tecnologia está distanciando das pessoas, ao invés de conectando. “Faz quanto tempo que as pessoas não se reúnem? Não sabem mais se aproveitar, estão sempre nas telas. Não estão desfrutando a companhia do outro.”, reflete o artista.

Ao ser perguntado sobre se a naturalidade manauara e amazonense influencia esse olhar expressado no álbum, MSym reconhece que influencia sim, mas que não foi a principal motivação, justamente porque “sempre fomos liderados por pessoas de fora; líderes do Distrito e diversos políticos, principalmente governadores não são amazonenses. Somos colonizados dos colonizados, ou seja, até nós não temos identificação com nossa terra. Eu tive que aprender com as experiências da terra. Quando você se reconecta com a natureza, você aprende a zelar por ela. A maioria das pessoas não têm essa identificação porque lhes é tirada pela mídia, pelo meio social, por um padrão que é imposto e que está completamente equivocado.”, avalia o artista.
A faixa “Cansei de me Preocupar” exorta à conquista da autonomia em meio ao julgamento alheio, além da recuperação da própria identidade. Sobre o desafio que é ser artista no Brasil, e, sobretudo, em Manaus, o músico afirma que, independentemente de circunstâncias, o artista sempre sofre desafios, mas que o segredo é ser sincero com suas convicções e dúvidas. Sobre esta canção, ele destaca os versos: “todo mundo tem sangue nas veias e pouco tempo para desfrutar”.
A Capa
A arte da capa do álbum traz MSym com um chapéu bem característico das representações da figura lendária do boto cor-de-rosa, que se transfigura em homem, nesse caso não para seduzir mulheres, mas nossas consciências perante a degradação ambiental. Mais ainda, a degradação do nosso tempo, como bem representado pelo fogo das queimadas incendiando relógios que se formam de ramificações de galhos, que, por sua vez, se estendem do artista. Do outro lado da capa, os rios e a flora exalam do mesmo, mostrando que somos parte do mesmo todo.

O fundo da capa, representando um paneiro, traz esse aspecto manual que celebra a arte cabocla.
Inspirações
O álbum “Burnout Caboclo” se insere no gênero dub-reggae, que se caracteriza por destacar a bateria e o baixo, geralmente em andamento lento e pesado, com forte uso de efeitos de estúdio como eco, delay e reverb.
Entre as inúmeras influências musicais do artista, encontra-se o rock e o reggae. Sua base rítmica vem muito da banda “Sepultura”, e, no reggae, a banda “Ponto de Equilíbrio” fornece muito de suas influências melódicas, com a voz peculiar e não-convencional de seu vocalista. O músico também cita o boombap, subgênero do hip-hop, como grande fonte de inspiração.
Processo de Produção
Para a realização das músicas, MSym se utilizou basicamente de três instrumentos musicais: guitarra, violão – juntamente com outro colaborador, Pedrinho Reis – e teclado. Além disso, houve também o uso de instrumentos virtuais. MSym aponta também que suas composições geralmente partem da melodia para a letra.

Apesar de produzido dentro do Laboratório de Áudio Aplicado aos Estudos das Artes Eliberto de Souza Barroncas, situado na associação Amazônia Audiovisual, as músicas transbordam a vida natural. Elementos percussivos, sementes de seringa, chocalhos feitos com elementos da terra, além de efeitos de foley utilizando água em uma bacia e o uso de bioinstrumentos, conferem às músicas uma ambientação natural única, que exalam aspectos da natureza e nos transportam para esse lugar de reconexão.

Avaliação
“Burnout Caboclo” é uma obra que transmite toda leveza, naturalismo e introspecção de uma viagem para fora das metrópoles e para mais dentro de si.
MSym consegue transitar de forma orgânica entre críticas sociais que envolvem os rumos do avanço da tecnologia – sobretudo o ritmo pós-moderno da civilização – bem como do cotidiano que afasta as pessoas da contemplação e de uma vida conectada à natureza.
Como mencionado antes, o artista também evoca suas dores pessoais com letras que estimulam a autonomia das próprias decisões profissionais – ainda mais em uma sociedade que desestimula o trabalho feito com prazer e a opção pela vida artística, além de lamentar o teor líquido das relações, em especial na sua faixa romântica “Química Venenosa”.
MSym demonstra seu talento em arranjos marcantes e letras simples. O ritmo leve acalenta a sensação de tranquilidade, descanso e euforia, que vão levar os ouvintes a cantar junto e sonharem com uma doce vida ribeirinha, alegre e independente.
