Grupo de Capoeira na Raça forma crianças e jovens na Zona Leste de Manaus

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Há mais de oito anos, o Grupo de Capoeira na Raça desenvolve um trabalho de formação cultural, esportiva e comunitária com crianças e jovens no bairro São José, na Zona Leste de Manaus. As atividades acontecem no CSA Zezão, sempre às segundas, quartas e sábados, das 19h às 21h, reunindo aproximadamente 50 crianças por mês e alcançando cerca de 300 crianças ao longo do ano.

O projeto tem como referência o Mestre Buda, nome pelo qual é conhecido Angelo Maximo Silva da Costa, que atua ao lado de Kamylla Rubens na condução das atividades. Nas rodas e nos treinos, os alunos aprendem movimentos, cantos, instrumentos e fundamentos da capoeira.

Para Mestre Buda, a capoeira é um meio de ensinar, orientar e cuidar das crianças. Sua história de vida, atravessada por desafios de comunicação, fé e dedicação ao saber cultural.

“Eu amo o que eu faço. Eu ensino porque isso é amor que eu sinto pelos alunos”, afirmou Mestre Buda.

Uma roda de aprendizado, disciplina e convivência

No Capoeira na Raça, a formação acontece de maneira coletiva. Cada treino é um espaço onde crianças e jovens aprendem a observar, ouvir, respeitar o mestre, acompanhar o ritmo dos instrumentos e participar da roda com responsabilidade. A capoeira aparece como linguagem cultural e também como caminho de disciplina, presença e convivência comunitária.

Mestre Buda costuma dizer que aquilo que se aprende na capoeira deve ser levado “para a vida toda”. Para ele, cada criança que canta, joga ou acompanha uma roda está vivendo uma experiência capaz de deixar marcas positivas em sua caminhada.

“Para ajudar uma criança dentro do nosso projeto, a gente precisa ensinar. Precisa ter berimbau, pandeiro, instrumentos, material para as crianças levarem isso para sempre e não saírem do caminho do esporte”

A trajetória de Mestre Buda

A história de Mestre Buda ajuda a compreender a força do trabalho realizado pelo grupo. Em entrevista, ele contou que enfrentou dificuldades de fala e de audição, e que hoje está voltando a estudar para aprender a ler e escrever. Ao falar de sua própria caminhada, ele relaciona a capoeira à superação de preconceitos e à descoberta de uma forma de se expressar no mundo.

“Você viu minha história, né? Eu era mudo, surdo. Estudei 10 anos. Agora estou voltando a estudar de novo para aprender a ler e escrever. Eu amo o que eu faço”

Em outro momento, o mestre destacou que a capoeira o ajudou a cantar, falar e repassar aos alunos aquilo que aprendeu ao longo da vida.

“Eu fui quebrando o preconceito. Eu faço o que eu gosto. Aprendi a cantar, aprendi a falar. E hoje eu passo isso para eles”

Sua presença no projeto se transforma em referência para as crianças. Mestre Buda ensina a partir da própria vivência, com simplicidade, mostrando que a capoeira é acessível a todos.

Um trabalho que alcança centenas de crianças

Atendendo cerca de 50 crianças mensalmente, o Grupo de Capoeira na Raça alcança aproximadamente 300 crianças por ano. Esse número revela a presença contínua do projeto na comunidade e sua importância como espaço de acesso à cultura, ao esporte e à convivência.

A atuação no bairro São José, na Zona Leste de Manaus, reforça o papel dos projetos culturais de base comunitária. Em territórios onde nem sempre há acesso regular a atividades formativas gratuitas, a capoeira se apresenta como uma possibilidade concreta de encontro, aprendizagem e permanência em uma rotina coletiva.

Necessidades para manter a roda viva

Apesar da continuidade do trabalho, o Grupo de Capoeira na Raça ainda enfrenta dificuldades para manter uma estrutura adequada. Entre as necessidades citadas por Mestre Buda estão instrumentos, uniformes e materiais de treino, como berimbau, pandeiro, atabaque, abadás, camisas, luvas, saco de pancada e tatame.

“Essas crianças não têm dinheiro para comprar um abadá, não têm dinheiro para comprar uma camisa. Eu tiro dinheiro do meu bolso para ajudar”

O pedido de apoio está ligado diretamente à permanência das crianças no projeto. Cada instrumento, uniforme ou material de treino representa uma condição a mais para que os alunos continuem participando das atividades, aprendendo a capoeira e fortalecendo sua relação com o grupo.

Para Mestre Buda, ensinar também é uma forma de proteger vínculos. Ao falar das crianças, ele reforça a importância da presença da família e da comunidade no acompanhamento de cada aluno.

“O que é a vida de uma criança dessa? Vocês viram ela cantando, aprendendo capoeira. Eu não quero perder uma criança para o mundo do crime e da droga. Os pais precisam olhar mais para os filhos”

A fala expressa uma preocupação social presente no cotidiano do projeto. Sem transformar a capoeira em solução única para problemas complexos, o Capoeira na Raça oferece um espaço de orientação, disciplina e convivência, onde crianças e jovens encontram referências positivas para seguir dentro e fora da roda.

O sonho de formar novos mestres

O futuro também faz parte da visão de Mestre Buda. Ele sonha em ver os alunos de hoje se tornando instrutores, professores, contramestres e mestres amanhã. Para ele, o trabalho desenvolvido no presente precisa continuar nas mãos das novas gerações.

“O que eu plantei hoje, eles vão plantar lá na frente. Eu espero isso desses jovens que estão treinando comigo. Eu estou batalhando por esse sonho, para mostrar para eles que é real na vida”

Mestre Buda resume sua relação com o projeto como uma missão de vida.

“Eu gosto muito de fazer isso. Eu já falei: um dia eu paro só quando eu morrer”

Mestre Buda segue mantendo viva uma prática cultural que forma, acolhe e aproxima crianças e jovens da Zona Leste de Manaus. A oficina se transforma em espaço de memória, disciplina e pertencimento, mostrando que a cultura se fortalece no cotidiano das comunidades, no compromisso dos mestres e na presença de cada criança que aprende a seguir no ritmo da capoeira.

Serviço

O quê: Grupo de Capoeira na Raça
Onde: Ginásio Zezão – Av. Autaz Mirim, 5561 – São José Operário, Manaus – AM
Quando: Segundas, quartas e sábados
Horário: Das 19h às 21h
Instrutores: Mestre Buda (Angelo Maximo Silva da Costa) e Kamylla Rubens
Público atendido: Aproximadamente 50 crianças por mês.
Redes Sociais: https://www.instagram.com/capoeira_na_raca/

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